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Por que Irã e Israel são inimigos? Entenda a origem do conflito

A escalada recente de tensões entre Irã e Israel marca um dos momentos geopolíticos mais delicados em suas histórias. Pela primeira vez, a República Islâmica atacou diretamente Israel, intensificando uma relação já conturbada ao longo das décadas.



Ao examinarmos o percurso dos dois países nas últimas décadas, torna-se claro como as antigas alianças evoluíram para uma situação de hostilidade, culminando no momento crítico que presenciamos em 13 de abril.


De acordo com relatos das Forças de Defesa de Israel (FDI), o ataque consistiu no lançamento de mais de 300 projéteis provenientes do Irã e de outros territórios, como Iraque, Iêmen e Líbano, onde o regime iraniano conta com milícias aliadas, como o Hezbollah.


O Irã justificou sua ação como uma retaliação ao ataque de Israel contra um edifício do consulado iraniano em Damasco, na Síria, e advertiu que qualquer nova "agressão" por parte de Israel seria recebida com uma resposta ainda mais severa e lamentável.


A realidade de hoje está assim: um confronto que o Ocidente tenta evitar que escale para um conflito em todo o Oriente Médio, uma região que tem sido pressionada pela guerra entre Israel e o Hamas desde 7 de outubro de 2023.


No entanto, a relação Israel e Irã nem sempre foi assim. Na verdade, o que acontecia era o oposto.

Isso ao ponto do Irã já ter sido, provavelmente, um dos aliados mais “confiáveis” de Israel “até 1979”, ano da Revolução iraniana, de acordo com Abbas Milani, diretor de Estudos Iranianos Hamid e Christina Moghadam da Universidade de Stanford, na palestra “Irã e Israel: Visão estratégica e objetivos” da Universidade da Califórnia em Berkeley, realizada no último dia 18 de março.


O que aconteceu que levou a essa mudança? Aqui temos um resumo da origem das relações entre os dois países.


A origem das relações Irã-Israel: de aliados a inimigos

Os aiatolás do Irã, que representam o mais alto escalão de liderança no país islâmico, têm uma tríade de objetivos essenciais: expulsar os Estados Unidos do Oriente Médio, substituir Israel pela Palestina e desafiar a ordem mundial liderada pelos Estados Unidos. Essa análise foi compartilhada pelo especialista em Irã, Karim Sadjadpour, durante o podcast "In the Room with Peter Bergen".


A hostilidade entre o Irã e seus adversários, incluindo Israel e os Estados Unidos, atingiu seu ápice em 1979, durante a Revolução Iraniana. Nesse período, o Xá do Irã, que era um aliado do Ocidente e de Israel, foi deposto pelos fundamentalistas islâmicos, como destacado por Peter Bergen, analista de segurança nacional da CNN.


Nos anos seguintes, como observa Bergen, as diferenças ideológicas entre Israel e o regime iraniano, combinadas com os contratempos e equívocos políticos dos Estados Unidos, contribuíram para intensificar a animosidade entre israelenses e iranianos.



Por que antes eram aliados?

Ao contrário do que se pode pensar, há judeus que vivem no Irã há mais de 2.500 anos.

Milani comentou que “viveram ali de forma contínua e amaram o país onde viveram”, como os judeus da comunidade iraniana de Isfahan.


A relação dos iranianos com os judeus foi decisiva na primeira metade do século XX, pois o Irã foi um dos países que concordou com o plano de divisão da Palestina da Organização das Nações Unidas (ONU) que criaria dois Estados: um judeu e outro palestino.


“Mesmo antes da criação de Israel, o Irã foi um dos países que apoiou a criação do Estado de Israel na ONU. Mas também era indiscutivelmente a favor de ter um plano para os palestinos”, enfatizou Milani.

O plano de divisão final da ONU, que incluía um Estado judeu, outro árabe palestino e Jerusalém sob um regime internacional, foi aprovado em novembro de 1947 com 33 votos a favor, 13 contra e 10 abstenções.

Entre os países contra estava o Irã, que anteriormente havia recomendado “a independência da Palestina como Estado federal que compreendesse, em sua estrutura interna, um Estado árabe e um Estado judeu.


Uma das razões apresentadas foi que a federação criaria uma situação na qual árabes e judeus estariam interessados em trabalhar juntos”, segundo documentos da ONU.


Após a declaração de independência de Israel em maio de 1948, houve várias guerras (1948, 1967, 1973) entre o novo Estado judeu e países árabes vizinhos.


Na primeira dessas guerras, participaram o Egito, Síria, Jordânia, Iraque e Líbano, mas não o Irã; enquanto, assinala a ONU, Israel “ocupou 77% do território que tinha tido a Palestina sob o Mandato Britânico, incluindo a maior parte de Jerusalém. Mais da metade da população árabe palestina foi expulsa ou fugiu do território do novo Estado”.





Interesses econômicos e militares

Embora seja notório que existiam desacordos, o Irã se afasta do conflito com Israel. Por quê? Abbas Milani explica que, além da sua população judaica, o Irã partilhava importantes interesses econômicos com Israel, sobretudo em dos maiores motores da economia iraniana: o petróleo.


“A partir de 1955, o Irã começa a vender petróleo a Israel a preços reduzidos. Assim que alguns estados árabes do outro lado do Golfo Pérsico começaram a dizer “não podemos vender este petróleo”, o Irã disse que o venderia com desconto”, explicou o especialista da Universidade de Stanford.


O livro “Israel and Iran: A Dangerous Rivalry”, publicado em 2011 pelo centro de pesquisa RAND Corporation, enfatiza a questão econômica como um ponto forte das relações entre os dois países, dizendo que “a aliança irianiana-israelense deu lugar a uma ampla cooperação econômica e energética”.

É depois da guerra israelense-árabe de 1967, também conhecida como a Guerra dos Seis Dias, que as relações entre Irã e Israel se tornaram mais antagônicas, acrescenta o livro da RAND.


“Em particular, na sequência da Resolução de Cartum de Setembro de 1967. A Resolução de Cartum, conhecida sobretudo por conter o que chegou a ser conhecido como os Três Não — não à paz com Israel, não ao reconhecimento de Israel, não às negociações com Israel — serviu de base para grande parte da política árabe para com Israel desde 1967 até 1973”, diz o livro.


Apesar disso, a cooperação econômica não parou, ao ponto de “estabelecerem novas companhias no Panamá e na Suíça sob uma entidade legal central chamada Trans-Asiatic Oil”, que foi a base operacional de uma “associação ultrassecreta” entre Israel e o Irã em matéria de petróleo no final de 1970, depois da Guerra dos Seis Dias e da guerra árabe-israelense de 1973, segundo o livro.


A companhia Eilat-Ashkelon Pipeline, uma subsidiária da Trans-Asiatic Oil, fornecia petróleo iraniano a Israel, acrescenta o livro.


Em 1973, os Estados árabes membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEC) proibiram as vendas aos Estados Unidos e a alguns países europeus, como represália ao apoio militar que estes países deram a Israel no meio das negociações de paz pós-guerra, segundo o Departamento de Estado dos EUA.


Este boicote petroleiro “colocou em sérios apuros a economia norte-americana, cada vez mais dependente do petróleo estrangeiro”, segundo os EUA.


No entanto, embora a inimizade com Israel já tenha crescido, o Irã não aderiu ao boicote e se tornou o maior beneficiário da situação, pois “continuou com sua produção de petróleo de maneira normal e, como resultado, as receitas aumentaram”, disse RAND em sua análise.


Além disso, acrescentou a organização sem fins lucrativos, o crescimento do setor petrolífero iraniano também foi utilizado para avançar nos interesses militares do país.


“Em 1977, um esforço militar conjunto entre o Irã e Israel denominado “Project Flower” concentrou-se no desenvolvimento de sistemas avançados de mísseis. Foi um dos seis contratos de petróleo por armas que os países assinaram no final da década de 1970, com um valor estimado de US$ 1,2 bilhão”, diz a RAND.

O caso acima exposto coincide com um relatório de abril de 1986 do New York Times, no qual informam sobre o acordo de mísseis entre Israel e o governo iraniano do Xá Mohammad Reza Pahlavi.


Embora Israel tenha se retirado do projeto “Flower” pouco antes da revolução de 1979, os países discutiram nele a possibilidade de incluir ogivas nucleares nos mísseis, mas isso foi descartado pelo Irã e Israel porque “levantaria um problema com os americanos”, indica o meio americano, cujo relatório inclusive foi retomado pela CIA.


“Há provas de que, entre 1975 e 1977, Israel estava ajudando o Irã a desenvolver um programa de armamentos. Assim de perto estavam em termos de aliança”, acrescentou o especialista Abbas Milani.


Revolução iraniana: o auge da inimizade

A inimizade atingiu seu ápice com a Revolução Iraniana de 1979, que marcou a queda do Xá Mohammad Reza Pahlavi e a instauração do regime teocrático liderado pelo aiatolá Ruhollah Musavi Khomeini, que havia passado 14 anos no exílio.


Diversos segmentos sociais, insatisfeitos com o governo do Xá, se uniram à revolução. Uma das principais críticas girava em torno da chamada Revolução Branca, um programa iniciado pelo Xá em 1963 que visava modernizar a economia e o sistema social tradicional do Irã. Contudo, os clérigos se opuseram a essas iniciativas de modernização e menosprezaram a contribuição da minoria judaica do país para o desenvolvimento econômico.


Embora o governo do Xá fosse aliado de Israel em várias questões, como a oposição ao presidente egípcio Gamal Abdel Nasser e sua ideologia pan-árabe, bem como a resistência à influência soviética no Oriente Médio, ele hesitava em abraçar publicamente Israel devido às tensões no mundo árabe. No entanto, via Israel como um contrapeso útil na região e acreditava que a influência israelense em Washington beneficiaria os interesses do Irã como potência em ascensão, conforme destacado no livro "Israel e Irã: Uma Rivalidade Perigosa".


Após a Revolução Iraniana, liderada por Khomeini e seus seguidores, o país se transformou em uma república islâmica. Embora a revolução tenha unido diversos grupos, incluindo comunistas, socialistas e secularistas, em um movimento contra o regime do Xá, Khomeini prevaleceu e estabeleceu uma teocracia, resultando na saída de membros de minorias religiosas do Irã.


Embora a relação entre a República Islâmica e Israel não tenha sido completamente rompida após a Revolução Iraniana, houve apenas cooperação limitada. Por exemplo, Israel realizou um ataque aéreo em 1981 contra um reator nuclear iraquiano em Osiraq, atrasando significativamente o programa nuclear do Iraque e beneficiando indiretamente o Irã em sua guerra contra Saddam Hussein. No entanto, a Revolução Iraniana marcou uma mudança irreversível, e as relações nunca mais foram as mesmas desde 1979.

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